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  • Lara Rovere

A dor do parto

Atualizado: 19 de Mar de 2019

Alguém chamou de parto natural. Certamente alguém que não pariu. Ou alguém que pariu, mas já esqueceu como dói parir. Para não esquecer ou mandar para a puta que pariu todos aqueles que disseram “calma, Lara!”, escrevo. Assim, celebro a dor de um novo parto. Natural o escambau! Expelir cada uma dessas palavras, até chegar à quinquagésima, me custa muito. Horas de sono. De um escreve-apaga sem fim. Constante. Feito o inspira-expira que ensinam na yoga para gestantes. - Doutora, pelo amor de Deus, me diz que já tá na hora de nascer! - Tá nada! Ainda faltam alguns centímetros de dilatação. - Professora, são quantos caracteres mesmo? Falta um bocado. Quanto não sei. Acho até que prefiro assim. Às vezes, o não saber é uma bênção, tipo quando eu não sabia se o que escrevia era crônica ou não. Conseguirei agora gestá-la? Saberei criá-la? Que cuidados hei de ter? Ouvirei muitos palpites? Força, mulher! O que a vida quer da gente é coragem, já dizia Guimarães. Chamo assim, com intimidade, para que eu absorva seu conselho e me vista de valentia, além dessa bata verde de hospital. Lembro-me do meu pai, que já não está mais aqui para ler e ver e se emocionar com essa nova criatura em carne e osso e lápis e papel. Lágrima. Água quente do chuveiro. Bola. Cadeira. Cama. Agacha. Senta. Levanta. Vômito. Diárreia. Chuveiro de novo. Dor. Pausa. Dor. Pausa. Inspira. Expira. Inspiração. Criação divina. Luz. Luiza.  Útero. Visceras. Coração. Corta o cordão! Lê em voz alta! Pronto, ela não é mais minha. É do mundo.

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