• Lara Rovere

Caritó

Esses dias lembrei da mãe de uma amiga com quem dividi bons momentos na adolescência. Éramos um grupo de seis meninas sobrevivendo a essa selva chamada ensino médio - e mais preocupadas com o tamanho dos seios e a chapinha do que com as notas, ou qualquer outra coisa, confesso. 


Quando uma ou duas de nós aparecia namorando, ela sempre falava para as demais: e vocês, vão ficar no caritó mesmo?

Outra confissão: do alto dos nossos 15 ou 16 anos, não conhecíamos esse termo. Na certeza de que o pai dos burros não poderia me ajudar nessa missão de traduzir tamanha pérola do cearês (ou seria machês?), recorri ao dicionário informal, que me contou que, no interior, caritó é uma espécie de prateleira, e também uma forma de se referir a uma moça que não casou. Enfim, um dos muitos sinônimos para o famoso ficou pra titia, que também se revela em indagações e afirmações como “e os namoradinhos?”, a cada ceia, ou “já pode casar”, como um selo de aprovação dos nossos dotes culinários.


Fucei mais um pouco e não encontrei a mesma variedade quando se trata de rapazes. No máximo um “SOLTEIRÃO”, em caps lock e no aumentativo para reforçar a virilidade. Como um novelo de lã, as lembranças foram se desenrolando em uma série de reflexões que me fizeram esquecer onde tudo começou, mas não aonde quero chegar. Estado civil, para nós mulheres, tem um peso diferente. Se casamos, querem logo nos acrescentar um sobrenome. Se temos filho, mas não nos moldes da tradicional família, viramos um nome composto: mãe-solteira. Sempre com esse detalhe escancarado, como um acessório o qual não conseguimos nos desvencilhar.


Antes que algum desavisado venha me atribuir adjetivos como “feminista mal amada”, acrescento que sou feminista, sim, como acredito que qualquer pessoa - homem ou mulher - com uma visão de mundo igualitária deveria ser. Sou casada, apaixonada e, desde de agosto do ano passado, mãe da Luiza. Nada disso, entretanto, me define ou limita como mulher.


Sou também pertencente a uma família de homens-sensíveis e mulheres fortes. Filha de um cara que chorava quando uma música  ou filme o tocava, e que distribuia carinho entre os amigos - pasmem -, em público. De uma mulher formada em engenharia civil, que é ariana, mas parece uma leoa, com quatro filhos, muitas lutas, três casamentos. Que casou e saiu de casa para buscar a felicidade, o amor. E só! Nunca, nunquinha, por medo de ficar no caritó. Na prateleira, a gente deixa objetos decorativos, um ou outro afetivo e alguns livros. Alguns... porque os preferidos a gente leva pra cabeceira, mas guarda mesmo é no coração. 

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