• Lara Rovere

Como se fosse...

Pela mão de sua mãe, mãe de outra três crianças - duas mais velhas, uma ainda bebê -, Débora foi levada para trabalhar em casa “de família”. Tinha oito anos, cabelos castanhos, seios ainda despontando na camisa de malha sem sutiã. Levaram-na ao quartinho onde, sozinha, dormiria todas as noites que intervalavam dias intensos, de lavar, passar, varrer e servir.


Com medo do escuro, acendia a luz, logo apagada pelos patrões. “A energia tá cara”, diziam. Também lhe dava medo o ritual de soltura dos cães, que entre rabos levantados e latidos altos, avançavam em sua direção. Pulava na piscina para se proteger. Foi assim que, além de lavar, passar, varrer e servir, aprendeu a nadar. Da infância, restava nada. Ou muito pouco. Restava, aliás, a inocência. Como no dia em que virou moça e chegou à Dona Raimunda, lavadeira da casa a quem confiava suas dúvidas, mostrando os lençóis sujos de sangue, enquanto apontava para debaixo da saia, procurando o tal corte.


Ao fim do mês, reencontrava sua mãe com um abraço ligeiro e mãos estendidas para, depois da bênção, entregar até o último centavo daquele trabalho que lhe roubava as horas e a meninice. Aos 18, foi ver a cidade pela primeira vez sem que fosse pelo vidro do carro daqueles para quem lavava, passava, varria e servia. Iria a praia com a irmã. Ter contato com outra água que não fosse a da piscina dos seus mergulhos de fuga. Ao atravessar a rua, Débora foi atropelada. De repente, não servia mais para servir. Foi mandada embora da casa de família. Na mala, nem sequer uma calcinha comprada pela mãe com o dinheiro do salário. Apenas roupas dadas pelas filhas dos patrões quando já estavam gastas e não lhes serviam mais. Diziam que ela era como se fosse irmã. Como se fosse...

Apenas noite passada, enquanto dividíamos um pedaço de bolo na cozinha da minha casa, conheci a história da Débora, a quem julguei conhecer há 12 anos, quando, já mulher, veio trabalhar na casa da minha avó. Senhora difícil, depressiva, gaúcha, maltratada pelos invernos da vida. Perdera o marido de alzheimer, meu pai - seu primogênito - de morte súbita. E Débora aqui, a fazendo sorrir com uma leveza admirável. Com cicatriz no joelho, mas poucas marcas no coração.

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