• Lara Rovere

Estômago e coração

O bebê “mirradinho” das orelhas de papel vingou, e hoje tem oito anos*. A pouca idade não revela, mas Lucas é um garoto que tem muito o que contar. Além de todos os seus contos mirabolantes, cartas deixadas na caixa do correio e piadas inventadas, seus dias também narram milhares de histórias. Tudo começou em 4 de dezembro de 2003, quando nasceu, dois meses antes do previsto e alguns quilos abaixo do comum. Desde aí, a palavra comum não existe na família Costa-Bandeira-Oliveira-Souza. Aliás, nunca existiu. Ele é o quarto filho de Fernanda e o primeiro de Silvério. O caçula da casa, fim de rama. Lara, até então a caçula, já tinha 15 anos na época.


Além de todas as dificuldades do nascimento prematuro, a síndrome de Berardinelli foi descoberta quando Lucas tinha oito meses, três deles vividos na incubadora. A família tomou conhecimento de algo que a maioria dos médicos desconhece. A síndrome é caracterizada pela ausência do tecido adiposo. Lucas não tem a camada de gordura e tem sim muita fome. “Tô com fome, mãe!”, o menino repete diária e incansavelmente.  Aos seis anos, desenvolveu diabetes e, desde então, passa o dia às turras com a glicose. Aliás, glicose, insulina e gordura são palavras que não fazem parte do vocabulário de uma criança comum. Ainda no universo da comida, é vegetariano. Não por imposição da síndrome, mas por influência do pai. Ambos não suportam a ideia de sacrificar um animal. Lucas é tão convicto! E tenta convencer a mãe, as irmãs, todos ao seu redor. “Você é carnívoro ou herbívoro?”, trata logo de perguntar.


Sua fome se estende a tudo. Da redundante fome de comer a fome de viver, de aprender. É a fome que define suas afinidades, suas ações e reações. Em alguns momentos o tira do eixo, trazendo à tona um lado agressivo, ainda minúsculo diante de suas outras faces. Lucas é também artista. Amanhece cantando Chico Buarque, à tarde pinta e à noite dá piruetas enquanto resiste ao sono.  O menino se exibe e a família aplaude, encantada. Lucas é a própria energia, ao mesmo tempo em que suga todas as energias da casa.

O guerreiro é também apaixonado. Se declara todos os dias, para as mulheres da casa e para as demais mulheres, ou meninas, que vai encontrando em seu caminho.  “Paixão é quando a gente sente o coração bater lá na barriga”, falou outro dia, após se dizer apaixonado. Então, é isso. Lucas é estômago, mas também coração.


*Hoje, Lucas tem 14 anos (completa 15 logo, logo, no dia 04/12). Esse texto foi escrito em 2011, para a disciplina de Jornalismo Literário. Lembro de finalizá-lo no mesmo dia da entrega, às pressas, e de, antes disso, ouvir do professor que era muito difícil escrever um perfil sobre uma criança. Tirei 10 e ouvi dele que, apesar de não ter atingido o mínimo de caracteres, o meu texto era como diz o ditado do perfume.


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