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  • Lara Rovere

Meu pai é feito para ler jornal

Eu devia ter uns quatro ou cinco anos quando alguém que me encontrou na rua, passeando com a minha mãe, perguntou:


- Lara, o que é feito do teu pai?


Hoje, com a capacidade de interpretar as palavras para além da literalidade, sei que o que ela queria mesmo saber era como ele estava, como quem deseja mandar lembranças. Mas, na época, o que consegui responder foi:


- Meu pai? Ah, o meu pai é feito para ler jornal.


Minha mãe ficou sem graça e explicou que todas as manhãs eu o encontrava lendo o

jornal: para mim, um objeto estranho que lhe cobria o rosto e roubava atenção logo nas primeiras horas do dia.


Papai gastava longos minutos debruçado sobre aquelas páginas de letras miúdas e imagens desbotadas. Caderno a caderno - sem dispensar nem os classificáveis -, se informava sobre o que acontecia na cidade, no país e no mundo, na sociedade, nos estádios, no planalto... e eu ali, plantada ao seu lado, entre birra e barulho, fazendo de um tudo para que seus olhos castanhos-esverdeados pairassem novamente sobre mim. Dado momento, não sei se por amor ou cansaço, se dava por vencido. Deixava o jornal de lado e vinha me cobrir de carinhos.


Era um homem carinhoso e culto, em igual medida e, às vezes, de forma até desmedida. Assumiu muitas responsabilidades cedo. Foi pai pela primeira vez aos 20 e, ainda assim, se formou em Engenharia, depois em Direito. Era amante dos livros, da boa música, dos amigos, da farra e, sobretudo, da família.


Ao fim da vida, sem saber que se tratava do fim, quis recomeçar. Voltou a morar no Rio Grande do Sul, sua terra natal, e pensava em entrar na faculdade de novo. Tinha dúvida entre cinema e jornalismo. Acho eu que teria sido um grande jornalista, pois, mesmo sem se saber um, influenciou a mim e ao meu irmão a seguir pelos caminhos da notícia e da palavra. Chegou a ver o Flavinho se formar e a me acompanhar no início da faculdade, a ler textos impublicáveis e os primeiros publicados. Fazia correções pontuais e elogiava sempre que podia, fosse a agilidade para digitar ou poder de síntese. Infelizmente, não teve tempo de me ver de beca e com livro publicado, assim como não chegou a se tornar jornalista ou roteirista.


Não sei o que seriam dos anos ou das notícias com ele por aqui. Às vezes, imagino como seria sua reação à atual situação política - se ainda agiria com o mesmo misto de paixão e revolta que o fez cuspir no rosto do Collor impresso na revista. Mas de uma coisa eu sei. Se encontrasse aquela mulher de novo, eu diria:


- Meu pai? Ah, meu pai é feito de sonhos.


E como diz uma de suas músicas preferidas, sonhos não envelhecem. Nem tampouco deveriam morrer...

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