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  • Lara Rovere

Não é qualquer carnaval que faz a minha cabeça

Não. Definitivamente, não é qualquer carnaval que faz a minha cabeça. Inclusive, para escrever este texto, tive que pedir ajuda à uma amiga que, tirando os cinco dias do carnaval, passa o resto do ano fazendo contagem regressiva para o dito cujo chegar. Dito cujo. Dito assim, parece até que tenho raiva dele, indiferença, sei lá. Também não é pra tanto. Gosto da festa, dos blocos de rua, da euforia coletiva que toma conta de (quase) todos à essa altura do calendário e, não esqueçamos delas, das fantasias. De nos travestirmos de cores, brilho e, sobretudo, das nossas ideias. Essa mesma amiga, em outros carnavais, já foi de Democracia rachada e de Nordeste, carregando o Brasil nas costas. Ao lado dela, um homem trajado de esquina. Nada tão poético quanto Ipiranga com Av. São João! Um cruzamento de açai, crossfit e farmácia. E, claro, muito riso. O cearense é mesmo um gênio! Gosto do carnaval. Acho, dentro do que é possível, uma festa democrática. Homem, mulher, velho, criança, cis, hétero, trans, preto, branco, pobre. Sinto falta dos índios. Não dos que se fantasiam deles, fingindo prestar qualquer reverência. Tenho repensado, na verdade, o uso da terceira pessoa. Eles. O mais correto não seria nós, uma vez que sangue indígena corre também em nossas veias? Bom, isso talvez seja assunto para outro texto, outro encontro, visto que há muito pano pra manga. Pra manga, gola, saia e uma metragem de tecido que daria conta dos figurinos das escolas de samba todas. Onde eu estava mesmo? Sim, nessa festa que se diz democrática, mas que também fantasia o preconceito, a homofobia, o desrespeito. Onde roupa curta parece convite, a bebida vira desculpa e onde quem não quer se “misturar” encontra nos bloquinhos de shopping um lugar. Onde, ainda bem, também há Praça, Luxo da Aldeia, Ednardo e alegria em bocado. Há abraço e cartase, como bem lembra minha ajuda “universitária”. Pedi a ela que listasse palavras que lembram carnaval, aproveitando para colocar em prática o exercício que aprendi em um curso de escrita. Oito palavras, uma luz. Alegria Abraço Catarse Encontro Brilho Coletivo Povo Praça Essas são crédito dela e, certamente, alumiaram um pouco o caminho desta escriba que, esse ano, estreia como mãe de foliã. Há umas duas semanas, Luiza foi ao Raimundo dos Queijos vestida de espanhola. Ouviu Transacionais, comeu espetinho com farofa e me lembrou do que mais gosto do carnaval: a simplicidade, a cultura e a arte. O contato com a cidade. A possibilidade criar memórias, ainda que ela, pela pouca idade, não possa acessá-las mais tarde. Lembro, então, do carnaval da infância, no Morro Branco, com maizena, farinha, mela-mela. Da faísca de alegria, mesmo que estejamos enlameados.

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