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  • Lara Rovere

Não há vagas

Atualizado: 19 de Mar de 2019

Agora em dezembro, o Lucas, meu irmão caçula, completa 15 anos, a idade que eu tinha quando ele nasceu. Olho para trás e me lembro da minha imaturidade na época, do ciúme e do amor ali, convivendo em desarmonia dentro de mim, uma adolescente como outra qualquer, que achava que seus problemas pesavam demais, ou que suas costas aguentavam de menos.

Avanço um pouco na linha do tempo. Encontro uma irmã apaixonada por aquele bebê que, apesar de mirradinho, já se demonstrava um gigante. Descobrimos que Lucas tinha uma síndrome rara, caracterizada pela ausência do tecido adiposo, o que explicava sua dificuldade em ganhar peso, o corpinho franzino e ao mesmo tempo forte, composto de músculo, osso e uma mínima fração de “carne”.

Logo vieram as consultas, os remédios, a preocupação, a discriminação. Olhares tortos pelos cantos, que pairavam primeiro sobre ele e depois sobre minha mãe. “Não dão comida a esse menino”? Tenho certeza que era isso que aqueles olhos feitos de íris, pupila, retina e crueldade  nos diriam, não fosse o filtro social que só esmigalha o preconceito.

Depois, veio a diabetes, a suspeita de autismo... Desafios enfrentados bravamente por Lucas, mas que só dificultavam sua socialização. Um entra e sai de escolas que acabou por revelar um sistema de ensino despreparado para lidar com as diferenças, com os diferentes. Após um desses “convites para se retirar”, eufemismo que não suaviza em nada a realidade, veio o desespero. Período de matrícula chegando e uma sequência de tentativas frustradas.


Em mais de um episódio, minha mãe teve que ouvir, de pé, ainda no corredor, com ele ao lado, sem que ao menos fosse poupado, que não havia vaga. Até que Lucas, dono das melhores tiradas, disparou: “mãe, e eu sou carro para precisar de vaga?“


Não sei por que cargas d’água fui me lembrar disso esses dias. Talvez tenha sido por causa da Lígia, uma estudante de jornalismo que conheci essa semana e que, aos oito anos, escreveu um livro sobre inclusão. Pela aproximação de seu aniversário ou, quem sabe, por conta da festa de formatura do colégio, que marca a transição para o Ensino Médio. Ou se pela incerteza dos tempos que virão, em que, mais do que nunca, os diferentes serão alvo do preconceito e da ausência de vagas por aí. Na dúvida, fico com Ferreira Gullar. “Porque o poema, senhores, está fechado: não há vagas”. Não, Lucas, você não é carro. Você é poema. E digo mais: é o meu poema preferido.


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