• Lara Rovere

Pó de pirlimpimpim

Infância. Essa palavra, por si só, me remete a tantas histórias, cheiros, afetos, brincadeiras e lembranças que fica até difícil organizá-las aqui, nesta folha em branco.  Mas, mais uma vez, são as páginas dos jornais - ou suas versões em cores, nas telas - que me indicam o recorte desta crônica.  Antes, falaria sobre os meus dias na Fazenda Gaia ou no Edifício Bérgamo. Sobre uma infância livre, leve e solta, embora sempre “encangada” com os irmãos - os por parte de mãe, de pai, todos eles - e com os primos, brincando, brigando, correndo, pulando, andando a cavalo, na locadora, no cinema, na praia, vendo desenho, desenhando, fazendo de conta, e, até, pegando catapora juntos.  Ou, deixando a nostalgia de lado, sobre essa menina que ainda brinca e bole dentro de mim, dessa mulher de 30 anos que, às vezes, se comporta como quem porta a insegurança de uma adolescente ou a curiosidade de uma criança que acabou de chegar ao mundo e quer desbravá-lo a todo custo.  Como vocês podem ver - ouvir, aliás -, tive uma infância comum, como todas as demais crianças da minha bolha. Para mim, o mais “diferente”, com aspas aqui, para enfatizar, era ter pais separados, irmãos dos dois lados. Dois com o mesmo nome, inclusive. Nem me fale! Era sempre confuso explicar essa parte de meus, deles, nossos. No mais, tive uma infância ordinariamente feliz. Na minha bolha, eu disse! Cresci, chegaram a idade, as contas, a realidade e - ploft - cadê a bolha que tava aqui? Sim, tenho consciência que sigo sendo uma privilegiada. Assim como a Luiza provavelmente será. Como diz uma grande amiga: mil folhas de privilégios. Ela tem um amigo cujo apelido, Milzinho, vem justamente daí.  Sou branca, heterosexual, classe média. Estudei em escola particular, fiz inglês, dança. Bom, o avô da Ágatha disse que ela também fazia dança e inglês. Nas entrelinhas, li que ele tinha esperança de que, talvez assim, ela fosse menos diferente, mais gente. Aqui, desse lugar de não-fala de quem assiste de longe, sinto como se tivesse uma bala alojada no peito. Como se, a cada criança assassinada, morresse também um pouco a criança que insiste em existir em cada adulto que resiste.  Como se aquela Lara de cabelos pretos e pernas roliças sempre marcadas por algum arranhão se entristecesse, esmaecesse, amofinasse na minha memória. Mas ela teve sorte. Conseguiu ser criança no gerúndio, enquanto Ághata agora é pretérito imperfeito e também futuro do pretérito. De era uma vez, sua infância teve só o Era. Ela foi, se foi, deixando tudo aquilo que ainda seria.  Lembro, então, daquela pergunta que ouvimos por toda a meninice: o que você quer ser quando crescer? Se soubesse, lá atrás, do que se passava fora da minha casca, cápsula protetora, realidade paralela, das minhas mil folhas e dos meus mil filtros, certamente desejaria, única e exclusivamente, ser. Se não fosse pedir demais - mas já pedindo permissão à Valter Hugo Mãe, que escrevendo à Marcelino, e citando Manoel de Barros, falou dos pássaros, amigos e versos -, desejaria que eu, os meus, os de vocês, os deles, os nossos, enfim todos nós, tivéssemos o mesmo direito. À vida, à natureza, à liberdade, à poesia, à fantasia, à infância. À Valter, Marcelino, Manoel, Ana Maria, Socorro, Dauna e Quintana. Seríamos, assim, todos passarinhos - às vezes, fora do ninho, fora de rota, sempre de passagem, mas nunca “En passant”. Sim, porque embora saibamos que estamos todos a passeio, evoco aqui uma birra quase infantil para dizer que não, não podemos deixar que nossas crianças - nem, tampouco, nossa esperança - vire lembrança distante, empoeirada. Se for para virar pó, que seja aquele encontrado pela boneca falante: de pirlimpimpim. Que nossas crianças - e as crianças que vivem em nós - tenham uma vida leve, na qual a imaginação - apenas ela - nos leve para perto ou longe daqui. 

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