• Lara Rovere

Primavera agora

Pela primeira vez, chego a este encontro com um texto escrito de segunda e editado, remendado, às vésperas. Tentei sair da prosa e escrever uma poesia sobre florescer ou, flor ser, como chamei. Nada contra - muitíssimo a favor dos poetas, aliás - , mas não sei se fui lá muito bem e foi assim, entre insegurança e vontade de, mais uma vez, me despetalar no papel, que reescrevi, refloresci. 


Nas rimas, falava, ainda meio zonza, sobre Amazônia, zona.. sobre matéria-prima, matéria-mãe, matéria-morta, artéria-aorta. Sobre esse assunto que foi deixando todos nós um pouco murchos, sem cor, sem esperança. Mas, apesar de saber que palavra também é espinho, não me vi muito ali, naqueles versos que me cortavam a garganta e o coração. Afinal, a escrita, para mim, sempre foi lugar de alento, pra onde eu ia quando queria aprumar as ideias, olhar para dentro. Cá estou eu rimando de novo, cruzando as fronteiras dos gêneros para seguir o fluxo desordenado dos meus sentimentos e, quem sabe assim, fazer sentir. E justo pertinho deste encontro, no desabrochar desse mês tão bonito que é setembro, constato que, sim, o medo faz parte da natureza humana. Mas que ele, ele não, ele não vai me calar. E que, mesmo que eu engrosse a voz, a minha fala, a minha escrita, vai ser sempre sobre afeto, com afeto. Foi por isso que decidi emprestar meu discurso - palavra dita ou escrita, mas sempre em curso - para casais, pais e pessoas em geral que tenham uma boa história para contar.  Sigo, então, me aventurando por esse terreno íngreme que é tentar compreender e traduzir as relações humanas. Agora, de um outro lado da montanha, como celebrante. Como alguém que, em meio a tanto caos e desumanidade, enxerga beleza nas pequenas epifanias, na vulnerabilidade dos diaa, na inconstância do instante, nos amores mutáveis, que jamais, sob hipótese alguma, serão como antes. Ou, como disse Cecília Meireles, na rotação da eternidade que, girando sem piedade, dá indícios de mais uma troca de estação. É primavera! Atravessemos e sejamos atravessados por ela. 

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