• Lara Rovere

Problema de mastigação

Atualizado: 19 de Mar de 2019

Manu, minha irmã mais velha, nasceu com um problema de crescimento e, como quase toda baixinha que conheço, um quê de atrevimento. Quando criança, protagonizou um episódio que, até hoje, é piada na família.  Daquelas piadas internas que a gente repete por aí e precisa contar o causo para, só então, o outro poder rir junto. 

Ela estava, toda serelepe, numa festa infantil à la anos 1990 quando foi abordada por um amiguinho. 

- ei, por que tu é tão pequena?

- todo mundo tem um problema, ué! O Rapha tem a língua presa e fala “cogo” em vez de fogo.

- Aposto que a Natália não tem. Diz aí qual o problema dela! Eu duvido. 

(um parêntese: Natália é nossa prima e melhor amiga da Manu. Sempre foi bem alta, dona de lindos cachinhos... enfim, uma criança aparentemente “perfeita”). 

Eis que Manu, ligeira que só ela, percebe a prima com um punhado de salgadinhos na mão, pronta para enfiar o próximo na boca, e emenda, apontando: 

- Ahh, a Natália tem esse problema horrível aí de mastigação! 

Os olhares voltam-se para ela, que, desconcertada, passa a fazer movimentos estranhos com a bochecha, quase entalando com o pastelzinho. 

Todos caem na risada e o menino se vê vencido, obrigado a concordar com a amiga. Afinal, se nem a Natália escapa, todo mundo deve ter mesmo problema. “Só a bailarina que não tem” repetia para si mesmo na volta para casa, lembrando da tal ciranda. 

A partir desse episódio, sempre que alguém elogia a grama do vizinho, a gente não levanta a possibilidade de ronco ou chulé, pois, graças a Manu, podemos recorrer ao problema de mastigação. E depois rimos, e dizemos uns aos outros (e a nós mesmos) que tudo bem ter problema. Uma das características da nossa família não é, entretanto, procurar problema ou defeito em tudo e todos. Pelo contrário. Além da autoestima maravilhosa - “modéstia só é virtude quando não se tem outra”, já dizia o vovô Zé Antônio -, todos os dias escolhemos acolher as diferenças. Talvez seja por isso que, mesmo longe da perfeição, somos tão felizes.  Como diz Içami Tiba, “é sobre a autoestima que repousa a alma.  E é nesta paz que reside a felicidade”. Mas isso já é assunto para outro post. Sejamos felizes! E respeitemos as diferenças... 

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