• Lara Rovere

Revolvere

Fortaleza, março de 2021. Um ano e 10kg a menos depois, mais um lockdown. Um “poquito” menos louca, menos down. Talvez porque, agora, apesar do mesmo decreto - apenas serviços essenciais abertos -, há, entre desesperança e cansaço, um corpo que se abriu para si mesmo e uma alma que, desde então, é essencialmente mais feliz. 10 minutos de meditação e meia horinha de atividade física podem, sim, ser uma puta revolução. Dessas que a gente bota reparo só de bater o olho, mas mal sabe que o reboliço grande mesmo acontece é do lado de dentro.


Início dos anos 2000. Nesta mesma cidade, uma outra mulher encontra seu ex-marido e de seus lábios ouve uma sentença de liberdade: eu te perdoo. Inicia, ali, um processo de autoperdão. A dor profunda que a consumia, dia após dia depois da traição, era também uma forma de trair-se. Ela fez as pazes consigo e – enfim e apesar do fim - os amou ainda mais.


Terminar um relacionamento e iniciar a faculdade. ENFERMAGEM, depois de anos trabalhando como babá. A primeira mulher da família a se formar, mesmo que para isso tivesse que ficar longe da filha, enfrentar mais uma separação. A data pouco importa. A pergunta que fica é: há revolução sem dor? Para ela, não. A saudade ainda machuca, mesmo agora, de canudo na mão.


“Um belo dia resolvi mudar”. Uma encorajadora Rita Lee cantava no spotify, enquanto mais um sujeito feminino de quem oculto o nome ajustava os últimos detalhes para partir de mala e cuia para São Paulo em busca de... bom, nem ela sabia bem. Pedir as contas do trabalho, vender o carro e chegar sozinha e sem emprego à maior capital da América Latina não foi tarefa fácil, mas, diante de um mar de incertezas, sair do piloto automático lhe parecia um bom horizonte. Quando a gente é criança, dizem que é comum sentir dor nos ossos durante alguns picos de crescimento. Viver longe da família e do mar, banhando-se apenas no sal das lágrimas solitárias, afinal, faz parte das dores da revolução de virar adulta. Dias de luta, mas nadinha de culpa. A sensação de liberdade que a inunda é imensa. Compensa. Talvez seja essa a grande glória.


Ingressar na faculdade. Mudar cidade ou profissão. Usar roupas coloridas. Passar batom Ruby Woo em plena luz do dia, por quê não? Aposentar o sutiã, aumentar o estoque de nãos e dizer sim para si, mesmo que para alguém, em algum lugar, soe como egoísmo. Publicar um livro independente, resgatar a autoestima, aprender a cozinhar, desaprender antigas lições, desapegar. Reatar com o espelho, passar iluminador, aceitar suas sombras e tirá-las para dançar. Elogiar outra mulher, aceitar um elogio como quem concorda. “É, eu sou foda”.

Frida Kahlo, Simone Beauvoir, Nina Simone. Maria, Cristiane, Larissa, Fernanda, Elane, Alba, Carolina, tu. Revolução é palavra feminina. Do latim revolvere. Completar voltas. Já iniciastes a próxima?

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