• Lara Rovere

Solidão e saudade

Não que antes da Luiza eu andasse por aí desfrutando apenas da minha própria companhia, mas agora - depois dos 30 e, sobretudo, da maternidade - da solidão sinto medo e saudade.


Dei pra sentir falta dos banhos demorados, sem preocupações ambientais e maternais, apenas com o fluxo d’água lavando corpo e alma de uma chuveirada só. O banheiro, aliás, virou local sagrado. É pra lá que penso em fugir e me trancar quando desejo uns momentos de quietude, seja para escrever ou rolar a timeline do instagram com suas muitas camadas de filtro disfarçando os poros abertos por onde deixamos a superficialidade nos penetrar.


Veja só que loucura: dei, até, para sentir falta de ir ao cinema sozinha - o que nunca fiz, é bem verdade. Confesso que esse terreno da solitude, do silêncio, do desamparo e do não pertencimento nunca sentiu a textura dos meus pés antes. Venho de uma família barulhenta, que não tem muito essa história de discrição ou segredo. Tudo - das alegrias aos anseios - é colocado à mesa junto com o banquete da Zuzu, para que compartilhemos da comida e também dos problemas. Ajuda e pitaco (embora alguns mais atrapalhem) são temperos que nunca faltam. 


A solidão, então, é para mim necessidade momentânea. Vontade que dá passa... 

Principalmente nos dias em que emendo uma reunião atrás da outra e, livre das obrigações da maternidade, fico com um olho nos ponteiros e outro na tela de fundo do celular, estampada com um retrato sempre atualizado da saudade; palavra soberana, sem par no pai dos burros. E pior: saudade de um dia só, coisa que até alguns meses jurava não existir.


Agora, aqui estou eu, acompanhada apenas desses pensamentos que insisto em ordenar depois de um dia cansativo, de muitas mamadas, choro, mamá pra cá, colo pra lá, texto interrompido, fralda no ombro, cabelo assanhado. enfim... enfim, só. Só eu e a danada da saudade. De um dia. De instantinhos atrás. 

17 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Talvez eu seja medíocre

acorde trabalhe persista escreva se informe assista seja genial faça algo grande cozinhe limpe a casa ligue para a sua mãe mande uma mensagem para saber da mãe da sua amiga internada no hospital seja

As mulheres que amei

Amei muitas mulheres. Algumas delas ainda amo. Outras hei de amar e, quem sabe, amarei por toda a vida. Amores platônicos e amores reais até demais. As mulheres dos discos e livros; cantoras, escritor

Revolvere

Fortaleza, março de 2021. Um ano e 10kg a menos depois, mais um lockdown. Um “poquito” menos louca, menos down. Talvez porque, agora, apesar do mesmo decreto - apenas serviços essenciais abertos -, h